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Prata olímpica da geração de 1982 completa 25 anos

Setembro de 1982. O Brasil conhece a seleção masculina de vôlei, faz festa e cria ídolos. Agosto de 1984. O Brasil se decepciona com a medalha de prata e chora com aqueles ídolos. Dois momentos marcantes para uma geração que colocou o nome do voleibol brasileiro no cenário mundial.

A histórica prata nos Jogos de Los Angeles-1984 completa 25 anos neste mês de agosto. Uma conquista um pouco amarga, mas que ajudou o jogo a ser admirado no país e impulsionou a trilha para chegar ao topo do mundo oito anos depois, em Barcelona. E agora voltar, com o título da Liga Mundial. Relembramos as  histórias de como aquela equipe se formou, dos treinosprimeiros autógrafosbrigas que acabaram com o time de prata.

Seleção brasileira de volei de 1984

Seleção brasileira de volei de 1984

Quem era quem
“O núcleo central era composto por Bernard, William e Fernandão. Junto com eles estavam Renan, Amauri, Montanaro, Xandó e Badá. Eram os oito principais jogadores”, afirma Bernardinho, o levantador reserva da equipe prata e hoje todo-poderoso do vôlei nacional. “Os demais, como eu, [Domingos] Maracanã, Leo, Marcos Vinícius brigavam para entrar nesse time. Tudo girava em torno daqueles nomes. Era um grupo muito fechado”, explica o atual técnico da seleção masculina.

Primeiros passos
O primeiro grande desafio dessa seleção foi a Olimpíada de Moscou, em 1980. Xandó estava machucado, Renan não brilhou e Moreno, remanescente da geração anterior, não pode participar de todos os jogos. Resultado: Brasil em quinto lugar, e ouro para a União Soviética. “Não jogamos com todo o potencial daquele time. Poderíamos ter ido mais longe”, analisa Bernardinho. “A União Soviética era imbatível e a Bulgária tinha um grande time, tanto que foram os primeiros. Com as outras a gente poderia ter lutado mais”, completa.

Um ano depois, o Brasil subiu ao pódio. Sob o comando do técnico Bebeto de Freitas, ficou com o bronze na Copa do Mundo depois de vencer a Polônia. “Foi uma disputa dramática e uma conquista fantástica. Mas ninguém ficou sabendo. A mídia nem falava direito de vôlei”, conta Montanaro.

Primeiro título e primeiro vice
No ano seguinte, a seleção masculina vararia febre nacional. Na preparação para o Campeonato Mundial, o país sediou o Mundialito, no Rio de Janeiro. Foi neste torneio que Bernardinho fez seu melhor jogo. O Brasil perdia por 9 a 1 para o Japão e conseguiu virar e vencer. “Foi o melhor momento da minha vida como jogador”, lembra o ex-levantador. Na final, a equipe brasileira venceu a gigante União Soviética por 3 sets a 2 diante de 20 mil pessoas que lotaram o ginásio do Maracanãzinho.

Seleção de Montanaro, Renan, William e companhia ajudou na popularização da modalidade no País

Seleção de Xandó, Renan, Bernard, Amauri, Fernandão e William , esse era o time base que ajudou na popularização da modalidade no País

Torcida e imprensa estavam conquistadas. Com o título, os jornais passaram a noticiar a seleção masculina e colocar o Brasil entre os melhores do mundo. O resultado foi o aumento de interesse por parte do público e ginásios mais cheios. A televisão também passou a transmitir as partidas, e a compreendido dos macetes do esporte se disseminou.

O time estava pronto para o Mundial, que começaria no dia 2 de setembro de 1982, na Argentina. Para conquistar a torcida local, os brasileiros distribuíram bonés e camisetas antes dos jogos. O Brasil foi passando pelos adversários e ganhando status.

Na primeira partida, arrasou a Líbia por 3 a 0, com direito a dois sets com 15 a 0 no placar (na época, cada parcial tinha 15 pontos e o time tinha que primeiro conquistar uma vantagem, assumir a posse de bola e, depois, concretizar o ponto). Na sequência, repetiu o mesmo placar sobre o Iraque. A primeira derrota foi contra a Tchecoslováquia, por 3 sets a 1. Na segunda fase, depois de grande confusão da organização, que mudou as chaves do torneio, a seleção venceu Polônia e Cuba pelo mesmo placar: 3 a 0. A vaga na semifinal veio em um 3 a 1 contra a Bulgária e, para encerrar a fase, com titulares poupados, Brasil perdeu para União Soviética por 3 a 0.

Nos dias de hoje a seleção que ganharia a prata em Los Angeles

Paulo Sérgio Rocha Angeles (preparador físico), Badá, Bernard, Renan, Amaury, Xandó, e Rui. Sentados: Montanaro, Willian, Marcus Vinícius, Fernandão e Domingos Maracanã.

Na semifinal contra o Japão, os principais jogadores estavam descansados, e o time venceu por 3 a 0 para garantir a vaga em Los Angeles. Na final, mais uma vez os soviéticos se sobrepuseram. A seleção perdeu por 3 sets a 0, mas já estava na elite do esporte.

Mesmo com o segundo lugar, o vôlei ganhou status entre os esportes no Brasil em um ano de decepções como a Copa do Mundo de futebol e Nelson Piquet na Fórmula 1. “O grito de gol foi transferido para o vôlei”, analisa Montanaro, atacante da geração de prata e hoje gerente do Brasil Vôlei Clube. Na volta para casa, os jogadores foram recepcionados com festa no aeroporto.

A prata olímpica
Agosto de 1984. Chegou a Olimpíada de Los Angeles. Pela primeira vez, a seleção brasileira masculina iria para um torneio mundial como favorita, ajudada pelo bicampeonato pan-americano em Caracas-1983. Para facilitar, a União Soviética não participou dos Jogos em resposta ao boicote dos Estados Unidos aos Jogos de Moscou. “Nós éramos totalmente conhecidos. Idolatravam a gente e confiavam naquele time”, afirma Montanaro. Foram mais de 400 horas de treinos e o time estava concentrado desde janeiro. Eles estavam prontos para lutar pelo ouro.

Na fase classificatória, vitórias sobre Argentina e Túnisia. Contra a Coreia do Sul, na partida que valeria vaga na semifinal, derrota por 3 sets a 1. No jogo seguinte, 3 a 0 nos Estados Unidos e o lugar na semi. “Viemos aqui buscar o ouro e só vamos sair como ele no peito”, disse Amauri depois da classificação. Na semifinal, Brasil venceu a Itália por 3 a 1 e encararia de novo os donos da casa na decisão.

Na temporada haviam sido nove vitórias brasileiras sobre os norte-americanos. Mas, na final olímpica, os Estados Unidos faturam o jogo com um 3 a 0, com parciais de 15/06, 15/06 e 15/07. “Perdemos para nós mesmos. A gente tinha condições técnicas para vencer, mas não tinha cabeça”, analisa Amauri. “Foi muita vaidade dentro da quadra. Um quis aparece mais que o outro. Foi a medalha de ouro mais certa que a gente deixou escapar”, explica o ex-central. A torcida também sentiu a decepção da medalha de prata. Dessa vez, não teve nenhuma festa no desembarque do time.

Com a sensação de ser eterno vice, como disse o levantador William ao jornal Gazeta Esportiva depois da derrota em Los Angeles, a seleção passou por muitas crises, brigas internas e se separou no final de uma era. Mesmo com a ausência de um grande título, com os vices no Mundial e na Olimpíada, aquele time entrou para a história do esporte nacional. Além disso, abriu caminho para o desenvolvimento de uma nova geração, com mais estrutura, que seria campeã olímpica em Barcelona.

“A fama subiu à cabeça de todos”, diz Montanaro sobre fim da geração; onde eles estão agora?

Jogadores da seleção brasileira dos anos 80 saíram do anonimato e viraram ídolos em poucos anos; brigas internas minaram uma talentosa e pioneira seleção

Fernadão, Bernard Xandó e Rui, no fundo, jogadores da seleção brasileira dos anos 80, que saíram do anonimato e viraram ídolos em poucos anos, infelizmente brigas internas minaram uma talentosa e pioneira seleção

, Quando se tem fama, dinheiro e sucesso, além de aprender a lidar com a cobrança para se manter entre os melhores, é necessário aprendera lidar com a vaidade de cada um. Os brasileiros voltaram da Olimpíada de Los Angeles com a medalha de prata e eram ídolos nacionais. Mas não engoliram a frustração de um segundo lugar no torneio em que era apontados como favoritos, e os problemas começaram a aparecer.

“Passamos de amadores a profissionais, éramos ídolos nacionais, e não soubemos lidar com isso. Um queria mostrar que era melhor que o outro, e perdemos o foco, que era jogar voleibol”, explica Bernardinho, levantador reserva daquela equipe.  “A fama subiu à cabeça de todos. Os contratos de publicidade aumentaram, começou e entrar dinheiro e a coisa começou a pegar”, conta Montanaro, ex-atacante.  “De repente, alguém faltava a um treino para filmar uma campanha publicitária e quem estava lá, trabalhando, ficava se perguntando se aquilo era justo”, lembra Amauri, meio-de-rede na Olimpíada.

Após essa quebra, a seleção não conseguiu subir ao pódio até 1987, tendo como melhor posição i quarto lugar na Copa do Mundo de 1985 e a mesma colocação no Mundial da França, em 1986. O time passou por uma renovação e contou com a chegada de nomes como Maurício, Carlão e Paulão, que seriam campeões olímpicos em Barcelona, 1992.

O comando ficou com o sul-coreano Young Wan Sohn, convidado pela CBV, que não agradava aos atletas. “Ele deixava a gente batendo bola e ia fumar”, conta Amauri. Os jogadores, revoltados, escreveram uma carta pedindo a saída do técnico, o Manifesto de Miami. Mas o documento acabou caindo nos jornais, e Carlos Arthur Nuzman, hoje presidente da CBV, não gostou nada – desconvocou todo o time e manteve Sohn no comando.

Pouco depois, um mês antes da Olimpíada de Seul, em 1988, o sul-coreano foi afastado. E Bebeto de Freitas voltou ao comando. Com ele, voltaram os jogadores da geração de prata, com exceção de Bernard e Bernardinho, que ficaram conhecidos como “os intocáveis”. Brasil foi aos Jogos e perdeu o bronze para a Argentina.

No ano seguinte, a situação do vôlei no país piorou. “As condições de treinamento não eram boas”, diz Montanaro, referindo-se aos treinos em Itapecerica da Serra, em São Paulo. “O ginásio não recebia os cuidados que a nossa prática exigia. No alto rendimento, qualquer poeirinha atrapalha. Reivindicamos algum pagamento e melhores condições de trabalho, mas Nuzman não nos atendeu e deixamos a seleção”, conclui o ex-atacante.

Apesar da separação do time, quase todos os jogadores daquela geração seguiram no esporte. Veja o que cada um deles está fazendo atualmente:

Em pé, da direita para a esquerda: Major Paulo Sérgio da Rocha, Jorge Barros (Jorjão), Bernard, Leonídio, Fernandão, Rui, Xandó, Domingos Maracanã, Amaury, Bebeto de Freitas e José Carlos Brunoro. Sentados, da esquerda para a direita: José Mathias, Marcus Vinícius, Montanaro, Bernardinho, Renan, William, Ronaldão, Cacau e Badá.

Em pé, da direita para a esquerda: Major Paulo Sérgio da Rocha, Jorge Barros (Jorjão), Bernard, Leonídio, Fernandão, Rui, Xandó, Domingos Maracanã, Amaury, Bebeto de Freitas e José Carlos Brunoro. Sentados, da esquerda para a direita: José Mathias, Marcus Vinícius, Montanaro, Bernardinho, Renan, William, Ronaldão, Cacau e Badá.

Montanaro: gerente do time de vôlei de São Bernardo do Campo Brasil Vôlei Clube

William: técnico do time feminino do Vôlei Futuro, de Araçatuba, interior de São Paulo

Renan: gerente de esportes do time Cimed, de Florianópolis

Xandó: supervisor de esportes da Secretaria Municipal de São Paulo

Bernardinho: técnico da seleção masculina brasileira

Marcus Vinícius: superintendente executivo de esportes do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e foi chefe da delegação nacional em jogos como o Pan-Americano e a Olimpíada de Pequim

Amauri: presidente da Associação Brasileira de Voleibol Paraolímpico e técnico do time de vôlei sentado na Olimpíada de Pequim

Bernard: seguiu carreira política e é presidente da Comissão de Atletas do COB

Maracanã: trabalha no projeto de inclusão social da Federação Paulista de Futebol

Fernandão: é professor do curso de Direito Desportivo da UniverCidade, do Rio de Janeiro, e já foi comentarista e colunista de vôlei e assessor de Bernard na Assembleia Legislativa

Rui Campos: gerente de esportes do departamento nacional do Sesi

Badá: único que deixou o esporte e foi cuidar de uma pousada

Bebeto de Freitas (técnico): até a terça-feira deste semana era diretor-executivo do departamento de futebol do Atlético-MG

Carlos Arthur Nuzman (presidente da CBV na época): presidente do COB.

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21 de agosto de 2009 - Posted by | História, Notícias

2 Comentários »

  1. Ola todos..sinceramente hj em dia a minha paciencia para assistir volei nao e mais a mesma..sei que o tempo de jogo foi encurtado para preservar a integridade dos jogadores e acho isso necessario. mas que era emocionante aqueles Bra x URSS que duravam 4 horas..os Pirelli x Atlantica que duravam das 22:00 ate 02:00 da manha..Ah! eram de mais mesmo.
    Mas temos que aceitar a modernidade e torcer pelo Brasil.
    Obrigado.

    Comentário por wander | 19 de dezembro de 2009

  2. Nossa que saudade! Acabava de assistir as partidas de volei na globo nas olímpiadas de 1980 e mudava de canal para a tv cultura onde passava o vídeo tape dos jogos. Sempre fui fanática por volei e tenho muito respeito, admiração e orgulho dessa geração de prata que despertou em mim a paixãopelo esporte.

    Comentário por Monica | 3 de janeiro de 2010


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